ARTIGO| O I Congresso da Paz no Brasil: a repercussão na imprensa e o grande comício dos trabalhadores no Largo São Francisco

O sexto e último artigo da série especial produzida pelo CEDEM/Unesp busca tratar da repercussão do I Congresso da Paz, realizado no Brasil em 1915, na imprensa, reforçando a importância deste evento na construção dos laços de solidariedade operária em nível internacional.

O I Congresso da Paz no Brasil: a repercussão na imprensa e o grande comício dos trabalhadores no Largo São Francisco

Renata Cotrim – historiadora

Com militantes “ardentemente animados”, que se contrapunham firmemente ao derramamento de sangue nos campos de batalha da Europa e a pleno pulmões gritavam “guerra à guerra”, o I Congresso da Paz realizou-se nos dias 14, 15 e 16 de outubro de 1915, na sede da Federação Operária, na cidade do Rio de Janeiro. De acordo com seus organizadores e com o noticiário da imprensa operária, “foi um fato acima da expectativa.” e revelou que o “pendão do internacionalismo continuava sendo empunhado pelo proletariado” (Na Barricada, 21/10/1915).

O Congresso, obra do operariado nacional, foi antimilitarista e apartidário. O evento também reforçou as articulações supranacionais do movimento operário brasileiro, aliás uma prática cultivada pelas lideranças que se esforçavam para fazer circular ideias e informações entre as associações de trabalhadores espalhadas pelo mundo (MARQUES, 2015). A avaliação do encontro foi bastante otimista e, na percepção dos responsáveis, fortaleceu a solidariedade de classe, como revela o seguinte excerto:

“Esta assembleia, reunida, apesar de tudo, em meio do geral descalabro causado pelo monstruoso crime guerreiro. É bem uma prova evidente de que as aspirações e os sentimentos do proletariado revolucionário não se acham mortos nem apagados. Podemos gritar para o mundo: ao velho pendão da Internacional nós o empunhamos, por sobre todas as ruínas, como um sinal de energia vital, de energia invencível. Viva a Internacional!” Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1915. A Comissão organizadora: Antonio F. Vieytes Astrojildo Pereira (Relatório da Comissão Organizadora, 14/10/1915, p.3).

No que respeita às deliberações, foram votadas medidas que tinham em vista impedir o avanço da guerra imperialista, cujos efeitos atingia em cheio o proletariado de todo o mundo. Assim, deliberou-se que:

  • os operários anarquistas e socialistas façam propagando visando uma greve de protesto contra a guerra;
  • realizem a boicotagem e a sabotagem contra as empresas e os patrões que contribuírem para a manutenção de qualquer guerra;
  • promovam manifestações contra as embaixadas, as legações ou os consulados de países em conflito;
  • se declarem contrários a todas as religiões, inclusive a católica, a todas as seitas, inclusive o positivismo e a maçonaria;
  • se esforcem por banir todas as escolas filosóficas e todas as doutrinas que toleram o atual regime de desigualdade social e a guerra.

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O evento terminou com um grande comício no Largo São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro, onde muitos oradores revezaram-se, entre eles os diretores da Federação Operária, delegados das nações sul-americanas, da Espanha e de Portugal. O último a discursar para a multidão foi o representante de São Paulo, Florentino de Carvalho, cujas palavras finais, segundo o Jornal do Brasil de 18 de outubro de 1915, foram:

“A emancipação da humanidade só é possível pela educação das classes proletárias nos ideais de reivindicação social e por uma rebelião permanente contra a tirania e a exploração. O povo reunido em comício público resolve:

1º – Protestar contra a Guerra, contra a militarização da infância e da juventude;

2ª – Realizar uma campanha tendente a fazer desaparecer da mente e do coração do proletariado os prejuízos hierárquicos, religiosos e nacionalistas;

3º – Promover uma revolta permanente até a destruição dos últimos vestígios das vigentes instituições;

4º – Declarar que suas aspirações se concretizam nos mais elevados ideais tendentes à consecução de uma revolução de caráter social, afim de que se inicie com a brevidade possível, um verdadeiro estágio de progresso de liberdade e de civilização.

Abaixo à Guerra! Viva a solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo! Viva a Revolução Social!”

Referência bibliográfica:

MARQUES, João Carlos. Guerra a Guerra: os movimentos anarquistas na Grande Guerra. Revista Tempo, Espaço e Linguagem v.6 n.2 P. 157-171. Irati (PR)/Ponta Grossa (PR) jul./dez. 2015.

 

Leia os outros textos da série:

Primeira Grande Guerra (Texto 1)

Trabalhadores unidos contra a Grande Guerra (Texto 2)

Confederação Operária Brasileira (Texto 3)

I Congresso da Paz e a classe operária brasileira (Texto 4)

Em meio à carnificina, a solidariedade operária (Texto 5)

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