Machado de Assis é nosso, é do povo

Astrojildo Pereira

Em 1939, na ocasião do centenário de Machado de Assis, Astrojildo Pereira ressalta em seu artigo na Revista Operária a grandeza deste expoente da literatura nacional, posicionando Machado em seu devido lugar: junto ao povo negro trabalhador. Confira o texto* completo abaixo.

O realismo dialético de Machado de Assis
Fonte da Imagem: Rádio Peão Brasil

Quando o Brasil inteiro comemora com entusiasmo e brilhantismo o centenário de nascimento de Machado de Assis, queremos trazer com o nosso depoimento a nossa homenagem a esse filho do povo, pobre, mestiço, vindo das camadas mais oprimidas da população e que a custa unicamente do seu gênio e do seu próprio esforço conseguiu colocar assim no primeiro plano dos nossos escritores.

Discordamos dos que vêem em Machado de Assis um escritor que somente possa ser compreendido pelas chamadas “elites”. O contrário justamente é o que se observa: as “elites” nunca o compreenderam e por por isso nenhum foi mais do que ele combatido e falsamente interpretado. Em Machado nós vemos o aprendiz de tipógrafo, o baleiro, o menino miserável do morro, o filho de um pintor pobre e de uma lavadeira, que acreditava na cultura como força de renovação e de progresso, que protestou indignado contra a invasão do México pelas tropas de Napoleão III, que escarnecer eu dos artifícios e dos convencionalismos de sua época que pôs a nu os angustiosos conflitos morais da sociedade do Segundo Reinado, que amou e sentiu mais do que todos a cidade onde nasceu e viveu e que soube exercer a sua profissão com dignidade e altivez, reagindo com bravura contra a degradação e corrupção do intelectual simbolizado no tipo clássico do boêmio irresponsável.

Não cremos que, batendo-se pelos direitos da personalidade e deles não abdicando em uma sociedade escravagista, feudal, em que “o império não era senão um prolongamento da colônia”, fosse Machado de Assis um conformista, como timbram em apontá-lo críticos apressados. Pelo contrário, sua atividade, nesse terreno, foi extremamente fecunda e progressista. Quanto mais o povo se instruir, quanto mais a cultura deixar de ser monopólio e privilégio de uma reduzida minoria,  quanto mais o Brasil transformar e avançar, mais a obra do escritor insigne ganhará em difusão e simpatia.

O carioca da segunda metade do século XIX vive nos romances e nos contos de Machado, tal como é, sem intenções preconcebidas por parte do autor, com seus defeitos e qualidades, humanamente. Nesses romances e nesses contos muito se terá que estudar e aprender o nosso passado. Isso sem falarmos na língua e no estilo do criador de Esaú e Jacó, na feliz combinação que soube fazer do gosto pelos bons clássicos com as novas formas de expressão brasileiras, na sua técnica que o Sr. Mário de Andrade comparou à de um artesão,  tanto era zelo e a responsabilidade que Machado punha em sua comunicação com o público.

A vida de Machado é, sobretudo, uma lição. Uma lição para o proletariado, para o homem do povo em geral, pois demonstra que o pensamento, a literatura e a arte não são um “dom natural” dos “bem nascidos”, mas um direito de todos os homens livres, de todos aqueles que sabem que só há horizontes fechados quando se foge à luta e que a cultura terá de ser, não uma concessão às massas,  mas uma conquista das massas, uma vitória dos ideais de liberdade.

A Revista Proletária presta, aqui, o seu tributo à memória de Machado de Assis e concita o povo brasileiro a reivindicar como um patrimônio seu, inalienável, a obra, sobre tantos aspectos digna de ser refletida e meditada,  do mestiço glorioso que foi em si mesmo um desmentido vivo e eloquente às calúnias sobre a “nossa inferioridade racial” postas em voga –  e não por acaso… –  pelos Oliveira Viana e outros apologistas do “arianismo” antinacional e dissolvente. Ele completa a galeria ilustre dos Luís Gama,  dos Lima Barreto, dos  Patrocínio, dos  André Rebouças e tantos mulatos e negros que honram a literatura,  arte e o jornalismo no Brasil.  Machado é nosso, é do povo.

Revista proletária, junho de 1939

* Artigo publicado no livro Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos de Astrojildo Pereira (2ª edição – Editora Nossa Terra)

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