ARTIGO| Primeira Grande Guerra

O primeiro artigo da série especial produzida pelo Cedem/Unesp sobre a Primeira Guerra Mundial busca traçar um panorama geral do conflito que marcou o século XX e do contexto mundial no qual a guerra se desenrolou. No texto, a historiadora Renata Cotrim aponta para as características singulares deste conflito e destaca a dimensão que as batalhas tomaram. Reforça ainda que as principais vítimas do conflito eram da classe trabalhadora e que, por isso, não tardou para surgirem as primeiras iniciativas do movimento operário contra a Grande Guerra.

 

Primeira Grande Guerra

Por Renata Cotrim, historiadora.

A Primeira Grande Guerra foi considerado o acontecimento que marcou o início do século XX (HOBSBAWN, 1995). Foi peça chave para a compreensão deste momento histórico. Com o início da Guerra, chega ao fim o período conhecido como Belle Époque, compreendido entre os anos 1871 e 1914. Foi a época em que as grandes potências europeias não vivenciaram guerras longas entre si. Foi também um período em que a burguesia europeia viveu seu maior apogeu, devido à expansão do capitalismo imperialista e à exploração imposta ao proletariado. O contraste foi tão impressionante para os que cresceram antes de 1914, que o significado da palavra “Paz” equivale a “antes de 1914”: depois disso veio algo que não merecia esse nome (HOBSBAWN, 1995). A Primeira Guerra Mundial envolveu todas as seis grandes potências européias da época: Grã-Bretanha, França, Rússia, Áustria-Hungria, Prússia (após 1871 ampliada para Alemanha), Itália, após a unificação, além de Estados Unidos e Japão. As guerras que haviam acontecido até então e que envolveram grandes potências foram muito rápidas, mas nenhuma delas foi considerada guerra mundial.

Segundo Hobsbawn, a Primeira Grande Guerra começou essencialmente como sendo uma guerra européia. Nas palavras do próprio autor:

“[…] entre a tríplice aliança de França, Grã-Bretanha e Rússia, de um lado, e as chamadas – Potências Centrais – Alemanha e Áustria-Hungria, do outro, com a Sérvia e a Bélgica sendo imediatamente arrastadas para um dos lados devido ao ataque austríaco (que na verdade detonou a guerra) à primeira e o ataque alemão à segunda (como parte da estratégia de guerra da Alemanha). A Turquia e a Bulgária logo se juntaram às Potências Centrais, enquanto do outro lado a Tríplice Aliança se avolumava numa coalizão bastante grande. Subordinada, a Itália também entrou; depois foi a vez da Grécia, da Romênia e (muito mais nominalmente) Portugal. Mais objetivo, o Japão entrou quase de imediato, a fim de tomar posições alemãs no Oriente Médio e no Pacífico ocidental, mas não se interessou por nada fora de sua região, e – mais importante – os EUA entraram em 1917. Na verdade, sua intervenção seria mais decisiva.” (HOBSBAWN, 1995, p.32)

Há uma mudança profunda no conceito de guerra após 1914. As batalhas ocorridas ao longo dos quatro anos de guerra envolveram todas as grandes potências européias, exceto Espanha, Países Baixos, os três países da Escandinávia e a Suíça (HOBSBAWN, 1995). Pela primeira vez, foram usadas metralhadoras e tropas ultramarinas fora de suas regiões. Os alemães previam um plano de campanha em duas frentes, com prioridade para a Frente Ocidental, ou seja, contra os anglo-ingleses, ainda que esta estratégia significasse perdas territoriais temporárias contra os russos na Frente Oriental. Uma das fases da Frente Ocidental foi a guerra de movimento, ocorrida entre agosto e novembro de 1914. A Bélgica foi quase que totalmente ocupada pelos alemães, além do norte da França. Porém, não conseguiram tomar Paris, tampouco dominar a costa francesa do Canal da Mancha. A segunda fase foi a chamada guerra de trincheiras, travada entre novembro de 1914 e março de 1918, e que provocou milhões de mortes. Por quase dois anos e meio, estabilizaram-se as linhas de combate e os exércitos adversários abrigavam-se em um sistema de trincheiras onde passaram a morar, convivendo com ratos, parasitas, lama e pó, frio ou calor, conforme as estações do ano. Protegidas por redes de arame farpado e por ninhos de metralhadora, eram posições quase impossíveis de conquistar. Os comandantes de ambos os lados, mesmo com sucessivas baixas, durante muito tempo continuaram a ordenar ataques frontais de infantaria, perdendo dezenas de milhares de homens para avançar alguns quilômetros.

 

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Na Frente Oriental, o maior exército do mundo, conhecido como “rolo compressor russo”, obteve algumas vitórias iniciais, antes de recuar diante dos alemães e dos austro-húngaros. O exército russo, mesmo com todas as dificuldades, tentou contra-ofensivas em 1915 e 1916, sofrendo terríveis baixas. No início de 1917, os Impérios Centrais controlavam firmemente a Polônia, a Lituânia, a Letônia e parte da Bielo-Rússia (territórios estes que faziam parte do Império Russo).

No campo político, os partidos socialistas e social-democratas aderem aos governos de seus países, usando como justificativa o nacionalismo para votarem os créditos de guerra. De acordo com Joana Dias Pereira:

“Alguns dos protagonistas do movimento operário, todavia, divergem da predominante posição antibelicista. A direcção do Partido Socialista Português (PSP) acompanha os seus correligionários além-fronteiras e apóia o governo de União Sagrada, apesar de parte das suas bases vir a apoiar o manifesto de Zimmerwald e, posteriormente, as Condições de Paz impostas pela revolução bolchevique. Também entre os anarquistas se destacaram alguns partidários da guerra, que acompanharam as posições de Kropotkine, defendendo a necessidade de combater o despotismo alemão. Os anarquistas mais ativos no movimento operário organizado, porém, alinhavam com a posição anti-guerrista da ala revolucionária do sindicalismo. Os jovens, organizados desde 1914 nas juventudes sindicalistas, foram aqueles que mais se destacaram nesta frente. O Despertar, órgão oficial das juventudes sindicalistas, e toda a propaganda e agitação promovida pelos seus ativistas, foi fundamental para fazer às idéias dos nossos inimigos uma crítica vigorosa. Segundo o próprio ministro da Guerra, fazia-se propaganda antimilitarista nos quartéis de todo o país pela escrita, e também pela palavra. (DIAS PEREIRA, 2014)

Neste contexto, quem ia para a linha de frente nos campos de batalhas, em sua esmagadora maioria, era o proletariado.

Nesse sentido, entre os meses de abril e maio de 1915 foi organizado um congresso internacional Pró-Paz em Ferrol, na Espanha. A escolha da Espanha foi estratégica – era necessário que o território que abrigasse o Congresso fosse neutro durante a Guerra. Esta iniciativa tinha por objetivo discutir os meios mais rápidos de fazer terminar a conflagração e os meios a empregar para evitar a sua repetição e o desarmamento geral(DIAS PEREIRA, 2014). Antes de serem expulsos pelo governo espanhol, os delegados portugueses apresentaram uma moção na qual defendiam:

“Que este congresso nomeie um comitê composto por delegados de Espanha e Portugal; que se trate de estreitar os laços de solidariedade entre o proletariado de ambos os paises, dando-se assim princípio à organização da federação ibérica, célula inicial da federação internacional dos sindicatos operários, contra a guerra, contra todas as guerras, contra a exploração capitalista e contra a tirania do estado; que se combata por todos os meios e em especial por meio da imprensa e da tribuna, a opinião burguesa e política na sua febre pelo aumento de armamento e pelo seu afan de conquistas territoriais”.[1]

 

Referências bibliográficas:

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX. 1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
PEREIRA, Joana Dias. O sindicalismo revolucionário: a história de uma Ideia. Lisboa, 2008. Dissertação [Mestrado em História Contemporânea] – Departamento de História, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.
SOUSA, Manuel Joaquim de. Relatório do delegado da U. O. N. ao Congresso Internacional Pró-Paz. Porto: União Operária Nacional, 1915.

[1] Manuel Joaquim de Sousa, Relatório do delegado da UON 2.ª secção ao Congresso Internacional Pró-paz realizado em Ferrol – Espanha – em Abril e Maio de 1915.

 

Leia os outros textos da série:

Trabalhadores unidos contra a Grande Guerra (Texto 2)

Confederação Operária Brasileira (Texto 3)

I Congresso da Paz e a classe operária brasileira (Texto 4)

Em meio à carnificina, a solidariedade operária (Texto 5)

O I Congresso da Paz no Brasil: a repercussão na imprensa e o grande comício dos trabalhadores no Largo São Francisco (Texto 6)

 

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