ARTIGO| A Confederação Operária Brasileira

No terceiro texto da série especial lançada pelo Cedem/Unesp no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, a autora aponta a relevância do protagonismo do movimento operário brasileiro no escopo das iniciativas da classe trabalhadora mundial contra a Grande Guerra. O I Congresso da Paz, realizado em outubro de 1915, foi um empreendimento levado à cabo por militantes brasileiros, dentre os quais se destaca o jovem ativista Astrojildo Pereira, que naquele contexto ainda atuava no movimento anarquista.

A Confederação Operária Brasileira

Por Renata Cotrim, historiadora.

A Confederação Operária Brasileira (COB) foi uma iniciativa discutida no Primeiro Congresso Operário Nacional, em 1906, no qual estiveram presentes quarenta e três delegados, representando vinte e oito associações. Havia diferentes linhas políticas no seu interior, representadas por ativistas de orientações diversas, a saber: reformistas, socialistas e muitos sindicalistas anarquistas. Entre os nomes de destaque pode-se citar militantes de São Paulo e do Rio de Janeiro, a exemplo de Edgard Leuenroth, Astrojildo Pereira, João Crispim, Luigi Magrassi, Giulio Sorelli, Motta Assunção entre outros, que ocupavam posições relevantes nas organizções (SAMIS, 2009, p.114).

A COB “era formada por federações nacionais de indústria ou de ofício, uniões locais e estaduais de sindicatos, sindicatos isolados em locais onde não existiam federações ou de industrias e ofícios não federados. (TOLEDO, 2013, p.14)” A despeito das dificuldades de se contituir em âmbito nacional, atuava no sentido de coordenar e aglutinar associações de trabalhadores de várias regiões do Brasil, o que conseguiu em relação a São Paulo, Alagoas, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco e de diferentes orientações e funções, como as de ofício ou pluriprofissionais (SANTOS, 2016.).

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I Congresso Internacional da Paz – o protagonismo brasileiro

Frente à proibição do Congresso Pró Paz em Ferrol, tornou-se urgente reorganizar a oposição à guerra, razão pela qual um novo Congresso foi convocado e, desta vez, teria lugar no Brasil.. Assim, por iniciativa de um grupo de militantes nacionais, nasceu o I Congresso Internacional da Paz, realizado em outubro de 1915 na cidade do Rio de Janeiro. O evento foi resultado das ações de entidades sindicais e de militantes reunidos em torno da COB, tendo em vista o cenário internacional. A propsota permitiu a aproximação de diferentes grupos ideológicos (socialistas, anarquistas) e sindicais (de ofício ou regionais) de várias partes do mundo, com vistas à união das forças de origem proletária para fazer ouvir sua voz diante das decisões dos estados nacionais, que se degladiavam num conflito cada vez mais sangrento (OLIVEIRA, 2009, p.210-232). O evento permitiu que as entidades presentes no Congresso estreitassem suas relações, reforçando prática corrente no movimento, que sempre se concebeu como transnacional. A historigorafia já demonstrou o intenso transito de militantes entre países como Argentina, Uruguai, Itália e Portugal (SANTOS, 2016). Vale acompanhar a convocatória para o Congresso:

“Aos socialistas, sindicalistas, anarquistas e organizações operárias de todo o mundo. A pressão exercida pelos governos das nações beligerantes sobre o governo espanhol, obrigando a este a proibir a reunião, em Ferrol, do Congresso Internacional da Paz, marcado para 30 de abril próximo passado, é uma prova de que os governos da burguesia temem que os proletários do mundo inteiro cheguemos a combinar esforços e, unidos todos, façamos cessar a horrorosa matança […]. Beligerantes e neutrais, sofremos as mesmas consequências do atual estado de coisas, – uns dando a sua vida nos campos de batalha, em holocausto ao deus do Capital, os outros, por efeito da crise industrial e comercial, morrendo de fome e de miséria, sem que uns e outros tenhamos um gesto de rebeldia para sublevar-nos contra os causantes de tão monstruoso crime de lesa-humanidade. A hora é chegada para que todos os proletários do mundo, e todos os homens de espírito altruísta e de grandes ideais de redenção humana, nos aprestemos para a luta” (Comissão organizadora, Congresso Internacional da Paz, 1915).

A organização de um novo Congresso foi uma resposta à probição e ao constrangimento sofrido pelos organizadores e participantes do evento em Ferrol, o que evidencia, mais uma vez, os laços transnacionais entre os militantes e o internacionalismo operário, fortalecido por meio dessas trocas. Do mesmo modo, é possível notar a preocupação em construir ações para impedir o enfraquecimento do movimento operário diante da maré nacionalista, que se acirrava com o conflito em curso. (SANTOS, 2016).

“Proletários do mundo: acorrei a este Congresso! Anarquistas, socialistas, sindicalistas: o momento é chegado dos grandes sacrifícios! Proletários das nações belijerantes[i]! Antes que morrer nas trincheiras, defendendo os interesses da classe capitalista, é preferível morrer nas barricadas, defendendo a vossa emancipação.”

A máxima que encerrava o Manifesto Cominista de 1848 ganhava uma nova e urgente atualidade, mais do que nunca era preciso repetir: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”

Referências bibliográficas:

SANTOS, Kauan Willian dos. Paz entre nós, guerra aos senhores”: as intentonas de organização política através da Alliança anarquista e o sindicalismo revolucionário em São Paulo durante a Primeira Guerra Mundial In: https://ithanarquista.wordpress.com/2016/05/31/kauan-w-dos-santos-paz-entre-nos-guerra-aos-senhores-as-intentonas-de-organizacao-politica-atraves-da-allianca-anarquista-e-o-sindicalismo-revolucionario-em-sao-paulo-durante-a-primeira/ Consultado em 09/05/2018.

SAMIS, Alexandre “Minha pátria é o mundo inteiro”: Neno Vasco, anarquismo e as estratégias sindicais nas primeiras décadas do século XX . Tese de doutorado em História. Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2006.

TOLEDO, Edilene. “A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República”. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão. A formação das tradições (1889- 1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

 

Leia os textos da série:

Primeira Grande Guerra (Texto 1)

Trabalhadores unidos contra a Grande Guerra (Texto 2)

I Congresso da Paz e a classe operária brasileira (Texto 4)

Em meio à carnificina, a solidariedade operária (Texto 5)

O I Congresso da Paz no Brasil: a repercussão na imprensa e o grande comício dos trabalhadores no Largo São Francisco (Texto 6)

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