Viva o 25 de Abril!

Por José Luiz Del Roio*

Os números do calendário podem revelar agradáveis surpresas. A mesma data pode representar dois momentos grandiosos da história. Este é o caso de 25 de abril de 1945, que marca a insurreição armada da cidade de Milão contra o nazifascismo e o de 1974, que enterra o salazarismo em Portugal com a Revolução dos Cravos.

Abril é primavera na Europa. A Itália, território de duros combates está arrasada, os exércitos aliados avançam contra as tropas nazistas. Milão, poderosa cidade industrial é naquele momento um ponto de concentração dos fascistas. Ali está Mussolini e seus principais assessores, também para lá convergem as brigadas negras italianas e fascistas de outros pontos da Europa como as milícias francesas de Joseph Darnand.  Na cidade está a sede da Gestapo e das S.S. alemães. O fascismo pretende transformar Milão em uma fortaleza inexpugnável.

As forças anti-fascistas agrupadas no CNL – Comitê Nacional de Libertação, decide que Milão tem que libertar-se por si mesma sem esperar os exércitos aliados. Para o orgulho e resgate dos italianos, pela infâmia fascista, lançam um terrível ultimato “Render-se ou morrer” – “A piedade está morta!”  No dia 24 de abril chegam as ordens para a insurreição. A mesma ordem indica que as Brigadas Garibaldi, lideradas pelo comunista Comandante Cino Moscatelli, desçam das montanhas e entrem em Milão.

Guerrilheiros em Milão, 1945

Já de madrugada, tem inicio a ocupação armada das fábricas, e os combatentes clandestinos da SAP – Esquadras Armadas Guerrilheiras – se mobilizam e conquistam as sedes dos jornais e das rádios. Horas depois, com a colaboração da população começa o cerco aos quartéis e sedes das forças militares fascistas. O combate toma conta da cidade. Mussolini e seus ministros fogem para os lagos mais ao norte. Seus cadáveres fuzilados voltarão para Milão três dias depois. As tropas nazistas iniciam sua retirada. Na manhã do dia seguinte – embora a luta permaneça – os jornais sobre a direção dos guerrilheiros anunciam: Milão está libertada.

Hoje minha amada Milão está esmagada pelo vírus, mas com orgulho de sempre recorda seu 25 de abril – Agora e sempre – RESISTÊNCIA.

Quase 30 anos depois…

Desejo homenagear a Revolução do Cravos com uma singela recordação pessoal.  O Partido Comunista Italiano havia organizado para o 25 de abril uma concentração de solidariedade aos países que sofriam debaixo de ditaduras fascistas naquele ano de 1974. Foi realizada na cidade de Terni, que possuía um forte componente de metalúrgicos. Foram convidados representantes da resistência em Portugal, Espanha, Grécia, Uruguai, Chile e Brasil.

Minha modesta figura representava os lutadores brasileiros. O companheiro português que neste momento não recordo seu nome era o vice-secretário do Partido Comunista Português. Já ancião, dirigente respeitado e que havia passado inúmeros sofrimentos nos anos em que esteve nas masmorras do fascismo português. Muito educado e muito formal. Na madrugada do dia 24 me encontrava num hotel, com insônia e ouvindo o rádio, quando o locutor deu uma estranha notícia – tropas militares moviam-se para Lisboa. Mais nada. Pensei se era o caso de acordar o companheiro português que dormia no mesmo hotel. Achei que sim e lá fui acordá-lo. Abriu a porta com seu pijama impecável. Pedi desculpas por incomodá-lo e informei-o do acontecido. Pensou alguns segundos e depois começou a pular, abraçou – me e disse: é o que esperávamos – o fascismo em Portugal caiu! E eu chorei.

Grazia Di Michele – Oltre il ponte – https://www.youtube.com/watch?v=i02cGkDQlV8


*José Luiz Del Roio é escritor, ex-senador da República Italiana. foi deputado na Assembléia Parlamentar da Europa em Estrasburgo e vice-presidente do Instituto Astrojildo Pereira.

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