Trabalhadores e a luta por memória – A Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas

Por Renata Cotrim

Publicado originalmente na Revista Clio Operária

Não podemos esquecer que a memória também é objeto de disputa política e ideológica. Por isso, a importância de se preservar os registros das lutas dos trabalhadores.

Operários e suas famílias no Salão Celso Garcia da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas (1929)
Fonte: São Paulo Antiga

Caminhar pelo Centro de São Paulo e observar os imensos prédios antigos, tentando imaginar o funcionamento desses edifícios ao longo da história da cidade, se tornou um hábito cultivado por mim desde a infância e que carrego ainda hoje. A cada passeio pelo chamado Centro Velho, um edifício me chamava a atenção de forma especial – o prédio da antiga sede da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas, situado à Rua Roberto Simonsen, 22 (há referências que situam o prédio na antiga Rua do Carmo, números 23, 25 e 39). Nessas caminhadas, normalmente realizadas em companhia do meu avô Manoel, também profundo admirador de “prédios, portas e janelas velhas”, o nome do edifício era objeto de profunda curiosidade – o que seriam a tais “classes laboriosas”? O que elas faziam de tão importante para terem um prédio inteiro com o nome delas na fachada?

Um passado de lutas encoberto por escombros

A Praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo, e todo seu entorno, recebe diariamente intensa circulação de trabalhadores e trabalhadoras que atuam na região – ambulantes, sapateiros, engraxates, operários da construção civil, vendedores, garçons, além de transeuntes, moradores de ocupações dos inúmeros prédios abandonados, e muitas pessoas em situação de rua. As pessoas que transitam pela região, veem atualmente apenas parte da fachada em art deco e as paredes laterais do edifício da antiga sede da Classes Laboriosas. Atualmente, o prédio que quase foi destruído após um incêndio de grandes proporções em 2008 – cujas causas nunca foram esclarecidas – está abandonado e em nada lembra o que foi no passado. O prédio abrigou o famoso Salão Celso Garcia, importante espaço cultural e de luta dos operários no início do século XX.

A Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas foi fundada em 1891 por trabalhadores, carpinteiros e pedreiros e tinha por objetivo garantir assistência médica às suas famílias e a proteção dos sócios nos diversos acidentes da vida, e sobretudo em caso de doença e morte, em um período em que não existia um sistema público de seguridade social. Além da preocupação com a assistência à saúde, as associações de socorro mútuo buscavam assegurar o sustento dos trabalhadores associados frente a impossibilidade de trabalho, zelar pela família dos que faleciam, oferecer assistência no funeral, além de prestar serviços jurídicos. Não se tratava, portanto, de uma entidade beneficente, pois a assistência fornecida pela entidade aos seus membros não deve ser entendida como concessão de favores, mas como o cumprimento de um pacto de mútua proteção contraído entre a associação e o sócio, regulamentado por uma carta de direitos e deveres.

Trabalhadores e a memória de suas lutas

A entidade passou por inúmeras mudanças no decorrer de sua trajetória, entre elas, algumas mudanças estatutárias e o registro do nome – inicialmente chamada de Associação de Pedreiros e Carpinteiros 1º de Maio, tinha por objetivos, além de promover a assistência médica entre seus associados e familiares, também o de fundar cooperativas para impulsionar o desenvolvimento da construção civil em São Paulo e exercer o papel de instância mediadora nas resoluções de questões trabalhistas.

“Posteriormente, a sociedade passou por uma reorganização interna vindo a abranger qualquer tipo de trabalhador que desejasse compor seu quadro de associados, não mais restringindo a entrada somente a pedreiros e carpinteiros. Por conta dessa resolução a entidade veio a se chamar Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas (MAESTRINI, 2011).”

O prédio da antiga sede da Associação foi inaugurado em fevereiro de 1909, e a partir dessa data, o Salão Celso Garcia passou a ter uma programação cultural e a receber espetáculos teatrais, saraus e apresentações musicais promovidos por trabalhadores e para trabalhadores. A clássica peça “Il Primo Maggio” de Pietro Gori, foi encenada inúmeras vezes, com o salão cheio de operários e suas famílias. A programação do Salão das Classes Laboriosas era divulgada pelo jornal anarquista A Lanterna. Ao longo dos anos, o Salão também recebeu inúmeras atividades sindicais, assembleias e reuniões de operários, de diversas entidades de classe, desde o início do século XX até meados da década de 1960, sendo, portanto, parte da história e do patrimônio cultural da classe operária de São Paulo.

Ao longo de suas atividades, o Salão Celso Garcia era um espaço de referência dos trabalhadores, tanto pelas intensas atividades culturais promovidas por diversas entidades, quanto nas batalhas travadas por melhores condições de vida e trabalho. Além das atividades culturais, o Salão foi palco de inúmeras conferências, entre elas a de Oreste Ristori, que discursou contra a guerra, em 1911. Recebeu a festa para angariar recursos para o jornal operário La Battaglia, em abril de 1912. Ainda neste mesmo mês e ano, foi palco das reuniões que articularam os protestos contra a carestia de vida, onde foi fundada a Liga Popular de Agitação Contra a Carestia. Em maio de 1913, recebeu a Grande Festa Operária, promovida pelo Sindicato de Ofícios Vários para relembrar a conquista da jornada de trabalho de 8 horas.

Ainda em 1913, durante a crise de desemprego que ocorreu em São Paulo, a Associação participou, junto com outras sociedades mutualistas e algumas beneficentes de São Paulo, pertencentes a várias nacionalidades, de uma reunião na sede da Società Dante Alighieri. Essa reunião teve o objetivo de formular um programa para ser apresentado ao governo estadual e ao municipal para que este não se limitasse à entrega de ajudas eventuais (e parciais) através da distribuição de alimentos. O resultado dessa reunião foi a elaboração de várias reivindicações: o início de uma série de trabalhos públicos (principalmente a abertura de frentes de trabalho nas estradas); fixação dos preços máximos dos bens alimentares e a fiscalização dos mesmos; abertura de mercados livres e armazéns municipais com alimentos a preço de custo; impedir temporariamente os despejos das casas; diminuir os aluguéis das casas operárias e um projeto de fundação de vilas operárias (BIONDI, 2011).

Ao longo das décadas de 1910 e 1920, o Salão Celso Garcia continuou servindo de palco para as festas e conferências operárias. As festas promovidas pelos jornais operários eram disputadas e serviam para estreitar os laços de solidariedade proletária e angariar fundos para a manutenção e continuidade das atividades da imprensa feita por e para trabalhadores. Jornais como A Plebe, Guerra Social, Alba Rossa, entre outros, promoveram suas festas no local. Essas festas costumavam reunir as famílias dos operários e militantes.

Antes da existência do imposto sindical, obrigatório a partir de 1930, as entidades organizadas e geridas por trabalhadores sobreviviam com poucos recursos oriundos dos próprios associados. As sedes dessas entidades de classe eram alugadas e bastante modestas. Sem espaços adequados para a realização das assembleias, comemorações ou qualquer tipo de atividade que reunisse um número maior de trabalhadores, as entidades recorriam ao aluguel do Salão Celso Garcia.

O Salão também teve papel fundamental na contribuição para as lutas do associativismo negro na Primeira República. É o que nos revela o jornal paulistano O Clarim, de 22 de junho de 1924. A reportagem do jornal relembra a memorável festa de 13 de Maio do Grêmio Recreativo Ituano – associação fundada em 1910 pelos “homens de cor”, que tinha como objetivos organizar “bailes, piqueniques e outros divertimentos”. Ocorrida em 1912, recebeu o escritor Ciro Costa, que fez uma participação especial, recitando pela primeira vez o poema Pai João:

Do taquaral à sombra, em solitária furna,

Para onde, com tristeza, o olhar ansioso alongo,

Sonha o negro, talvez, na solidão noturna,

Com os límpidos areais das solidões do Congo;

Ouve-lhe a noite a voz plangente e taciturna,

Num magoado suspiro entrecortado e longo,

E o rouco, surdo som, zumbindo na cafurna,

É o urucungo, a gemer, na cadência do jongo.

Bendito sejas tu, a quem, certo, devemos

A grandeza real de tudo quanto temos!

Sonha em paz! Sê feliz! E que eu fique de joelhos,

Sob o fúlgido céu, a relembrar, magoado,

Que os frutos do café são glóbulos vermelhos

Do sangue que escorreu do negro escravizado!

Ainda em 1924, o salão da associação recebeu a festa em comemoração à fundação do Grêmio Dramático Recreativo e Literário Elite da Liberdade. Estiveram presentes na ocasião representantes de várias associações negras, como Clube dos Cravos Vermelhos, Centro Recreativo Smart, Centro Recreativo 6 de maio, Grupo das Margaridas, Grupo dos Bohemios, Centro José do Patrocínio e União da Mocidade, entre outros.

Em 1953, foi espaço fundamental para a articulação em torno da grande greve ocorrida naquele ano, que envolveu 300 mil trabalhadores durante 27 dias com resultado vitorioso. Também sediou várias reuniões dos trabalhadores e militantes que se opuseram e resistiram ao Golpe de 1964.

Atualmente, a Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas não ocupa mais o prédio de sua antiga sede, abandonado há anos e em estágio avançado de deterioração. Tampouco se apresenta como a associação de socorro mútuo que foi um dia, aquela fundada por carpinteiros e pedreiros, onde circulavam trabalhadores nacionais e imigrantes, unidos na solidariedade proletária, preocupados com a saúde e bem estar de suas famílias e de sua classe. Não se sabe ao certo o que aconteceu com o arquivo histórico da associação, porém há suspeitas de que foi consumido pelo fogo no incêndio do prédio em 2008. Para ocupar o espaço na memória dos trabalhadores, que de certo modo estão habituados a ouvirem o discurso falacioso proferido há anos, de que o povo é acomodado e inerte às constantes barbaridades praticadas contra si, a nova associação foi instalada em um prédio espelhado na esquina da Rua da Consolação com a Rua Rêgo Freitas, e nos enormes letreiros lê-se que a mesma foi a “primeira operadora de plano de saúde do Brasil”.

Não podemos esquecer que a memória também é objeto de disputa política e ideológica. Por isso, a importância de se preservar os registros das lutas dos trabalhadores. As informações sobre a atuação dos operários organizados em suas entidades de socorro mútuo, sindicatos, federações e partidos políticos contidas em pesquisas nos últimos anos estão sendo reveladas graças à preservação e ao acesso aos documentos produzidos ao longo de muitos anos pelos próprios trabalhadores. É sob a ótica desses homens e mulheres anônimos que será possível contribuir para a construção da história sob uma perspectiva de classe – a da classe trabalhadora.

Referências bibliográficas

  • BIONDI, Luigi. Aventuras e desventuras da Sociedade Italiana de Socorro Mútuo ‘Lega Lombarda’. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH. São Paulo, julho 2011.
  • DOMINGUES, Petrônio. Esta “Magnânima Volição”: a Federação dos Homens de Cor. Dossiê Escravidão e Liberdade na Diáspora Atlântica. História (São Paulo) v.37, 2018.
  • MAESTRINI, Karla. Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas.Verbete contido In: MOTT, M.L. e SANGLARD, G. (org.) História da saúde em São Paulo: instituições e patrimônio arquitetônico (1808-1958). Barueri: Manole/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.
  • MATOS, Maria Izilda S. de. Histórias, tradições e associativismo: Portugueses em São Paulo. Anais do XXX Simpósio Nacional de História, ANPUH. Recife, julho 2019.
  • PARRA, Lucia Silva. O Centro de Cultura Social e suas práticas de ação cultural. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH. São Paulo, julho 2011.
  • VARGAS, Maria Thereza (org.). Teatro operário na cidade de São Paulo. São Paulo; Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de informação e Documentação Artísticas, Centro de Pesquisa de Arte Brasileira, 1980.

Este texto não teria sido escrito sem as inestimáveis contribuições de Jacy Barletta, José Luiz Del Roio, Marly Rodrigues e Solange Souza. Meus sinceros agradecimentos à essas pessoas pela generosidade em compartilhar seus conhecimentos e pelo comprometimento com preservação das memórias da classe operária no Brasil.


Renata Cotrim é mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora do Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL-PUCSP). Historiadora do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista – CEDEM/UNESP

Um comentário

  1. O edificio marcou um momento historico, pois inumeras atividades eram realizadas no local desde o inicio do seculo XX e que fazem partes integrantes a participacao dos trabalhadores como classe organizada ate a decada de 1960. Portanto, simbolo da organizacao e cultura dos trabalhadores da Cidade de Sao Paulo, o edificio-sede da Associacao das Classes Laboriosas.

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