ARTIGO| O que há de comum nas valas comuns?

Por Mariana Inglez*

Sempre acreditei que só conhecendo o passado podemos construir um futuro diferente e melhor. A bioantropologia como área de estudo na qual tenho estado imersa há alguns anos, parte do pressuposto de que, para saber quem somos enquanto humanos, o olhar precisa ser amplo: é preciso ir do passado para o presente, da biologia para nossos aspectos sócio-culturais. Nessa área, aprendi a ler as histórias que os corpos nos contam.

Desde 2014 tenho trabalhado analisando esqueletos humanos provindos de uma vala clandestina construída durante nossa ditadura civil-militar no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, São Paulo. Dessa vala foram exumados mais de 1000 corpos, os quais ainda hoje passam por limpeza e análise, com o intuito de identificar desaparecidos políticos mortos pelo Estado, que podem ter sido ali ocultados.

Esse ano, tive a oportunidade de visitar a Bósnia e uma reconhecida instituição de busca de pessoas desaparecidas e que surgiu com o objetivo de auxiliar o governo após a guerra e respectivo genocídio que aconteceu na região entre 1992 e 1996. Foram mais de 200.000 vítimas.

São tantas as semelhanças que identifico entre nosso momento e as tensões que levaram ao conflito na Bósnia (e a tantos outros ao longo de nossa história) que acho válida a reflexão na forma desse texto-desabafo.

Todas as pessoas com as quais convivi e construí laços de admiração e amizade enquanto estive na Bósnia têm lembranças ainda frescas da Guerra. Mais do que isso, têm pessoas próximas desaparecidas e mortas. Todas.

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Visitei diversos museus que tratam do histórico pré e pós guerra; que mostram como era a infância durante o conflito; que expõem massacres específicos e marcantes como o de Srebrenica (no qual mais de 8.000 homens de todas as idades, de crianças a idosos, foram mortos e enterrados às pressas em valas comuns). Por todos os lados reforça-se a importância do recordar para não repetir. Não repetir.

Dentre as falas que mais me marcaram e que ecoam nesse momento, estão aquelas que me diziam: “nós não imaginávamos que seria possível…”. “Estávamos na Europa, tínhamos uma constituição…estávamos em 1992…”. “Como poderíamos prever que o nacionalismo, a ideia de superioridade de um grupo sobre o outro, o princípio de um inimigo comum a ser derrotado, a imposição violenta da vontade de alguns sobre o direito de outros, levaria a uma guerra desse tamanho?”.

Quantas vezes ouvi nesses dias pré-eleições: “acho que não vai ser tão ruim”; “ele não pode fazer tudo o que diz”; “temos uma constituição”.

Ver as valas e alguns dos milhares de esqueletos que delas saíram, estádios de futebol transformados em cemitérios e ouvir os relatos doloridos de quem sobreviveu ao conflito ao mesmo tempo em que estava rodeada por pessoas acolhedoras e por um lugar com uma natureza ainda tão linda, me fazia pensar em meu próprio país, nos nossos conflitos do passado e do presente.

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Vinte e três anos se passaram desde o fim da Guerra da Bósnia. Vinte e três anos e as feridas permanecem abertas. Ainda hoje milhares de desaparecidos não foram encontrados. Famílias inteiras destruídas. Em especial, como sempre, mães ainda aguardam dia e noite por respostas e pelo direito de enterrar seus mortos.

No Brasil, a busca por desaparecidos de nossa ditadura e o luto não findado de tantas famílias já duram mais de 50 anos. Temos um dos Estados que mais mata a própria população e os desaparecimentos são uma realidade atual.

Ainda me surpreendo e me entristeço com nossa incapacidade de aprender com o passado.

Ler os sinais da violência perpetrada contra os corpos, todos os dias, nos ossos que resistem contra o tempo, também me marca de certa forma. Traumas nas diferentes porções do esqueleto…em pessoas de todas as idades… o descaso que mistura os ossos de tantos corpos tornando mais difícil individualizar cada um.

 O que há de comum entre sociedades que estão cegas pelo ódio ou pela indiferença? O que há de comum entre as valas (comuns) ao redor do mundo?

Sejam corpos de bósnios, corpos de desaparecidos políticos no Brasil ou os corpos de indígenas, lgbtqs ou de negros periféricos que muitas vezes não chegam nem ao privilégio de serem analisados…cada corpo deveria importar. Em caso de dúvida, vidas não deveriam valer o risco.

 

*Mariana Inglez é Doutoranda pelo Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE-USP) e membro da Equipe de Identificação de Mortos e Desaparecidos Políticos (EIMDP)

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