Os mortos e desaparecidos da ditadura vivem por meio da luta de seus familiares

No dia 9 de julho de 2018 foi realizada a comemoração ao Dia da Luta Operária na cidade de São Paulo e a homenagem à José Luiz Del Roio, escritor, ativista político e um dos fundadores do Instituto Astrojildo Pereira. Entre os convidados a prestar homenagem à Del Roio estavam representantes de centrais sindicais, militantes de diversos partidos e movimentos sociais, intelectuais e ativistas dos direitos humanos. Na ocasião, a arqueóloga forense Ana Paula Tauhyl fez um discurso emblemático e emocionante, que reproduzimos aqui, na íntegra.

 

Companheiras, companheiros,

Eu me chamo Ana Paula Tauhyl, sou arqueóloga e trabalho para o Grupo de Trabalho Perus, na busca por desaparecidos políticos que podem estar entre as ossadas encontradas na vala do cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus.
A minha profissão se baseia totalmente no olhar para a materialidade e estar justamente aqui, neste dia, faz com que diversas reflexões me venham à mente. Uma delas e talvez a mais importante, seja a questão da memória e do esquecimento, da presença e do desaparecimento.
A data de hoje, nove de julho, dia da luta operária, foi assim designada em virtude da morte de José Martinez, o jovem sapateiro espanhol assassinado pela polícia na ocasião da greve geral de 1917. Martinez se tornou o principal expoente, mas não foi o único a sucumbir. A menina paulistana Eduarda Bindi, de oito anos, e o italiano Nicola Salerno também foram assassinados, quatro dias depois. Os três apresentam registros de sepultamento no livro do cemitério do Araçá, mas o que dizer dos mais de vinte desaparecidos? Onde estão? Onde está a vala comum daqueles que ali tombaram?
Em 1924, a Revolta chamada “Esquecida”, traz em seu próprio nome a questão. Ocorrida também no mês de julho, a revolta foi reprimida com bombardeios nos bairros operários, o que resultou em mais de quinhentas mortes e por volta de cinco mil feridos. Onde está a memória desses nomes e a lembrança do ocorrido? Onde está seu destaque na história de São Paulo?
Conheci Del Roio por meio do Grupo de Trabalho Perus. Lá também tive a oportunidade de conhecer histórias tristes, de dor e de saudade, mas também de imensa coragem e doação pelos outros. Para além de histórias individuais, pude me deparar com a crueldade de um Estado que reprime desde sempre. Os mortos e desaparecidos da ditadura militar vivem por meio da luta de seus familiares, apesar das estratégias de desaparecimento empregadas pelos poderes públicos e da indiferença de grande parte da sociedade.
Por outro lado, pesquisando tais acontecimentos de luta e resistência, também conheci histórias anônimas, deixadas de lado, escondidas, silenciadas. Vítimas do esquadrão da morte, crianças mortas pela meningite censurada na década de 70, indigentes marginalizados pelo Estado e pela sociedade, pessoas que lutavam por melhores condições de trabalho e que
acabaram mortas ou desaparecidas na greve, e bebês vitimados pelas péssimas condições de vida, pioradas por uma guerra mundial e por um inverno rigoroso, só para citar alguns exemplos. São histórias que habitam os arquivos, com suas páginas amareladas, cheirando a mofo, à espera de alguém que os vasculhe e que faça a eles as perguntas necessárias. São vidas que gritam para nós lições, as quais nem sempre somos capazes de entender.
Infelizmente, as vítimas da greve de 1917, da revolta de 1924 e da ditadura militar têm em comum o fato de repousarem silenciadas nesse lugar de sombras. Mas este dia, esta fábrica e esta homenagem nos fazem lembrar que é tempo de luta. De luta pela memória, de luta contra o esquecimento. De luta pela presença, de luta contra o desaparecimento.

Que nossos mortos e desaparecidos estejam sempre presentes.
Parabéns, companheiro Del Roio!

São Paulo, 9 de julho de 2018

Ana Paula Tauhyl

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